Pumpkin spice movimenta US$ 66,5 milhões e mostra a evolução do gourmand

Todo ano, quando o verão ainda insiste em permanecer no Hemisfério Norte, a indústria começa a anunciar o outono. As vitrines mudam, cafeterias recuperam seus cardápios sazonais e uma combinação de abóbora, canela, noz-moscada, cravo e doçura volta a ocupar o centro da cultura de consumo. O pumpkin spice já não é apenas um sabor associado ao café: tornou-se um código olfativo, visual e emocional capaz de atravessar alimentação, velas, cuidados corporais e perfumaria.

Essa força ficou mais evidente com novos dados de mercado. De acordo com uma análise publicada pela BeautyMatter, produtos que traziam “pumpkin spice” no nome movimentaram cerca de US$ 66,5 milhões na Amazon nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, alta de 17% em relação ao ano anterior. O número abrange várias categorias e, portanto, não deve ser confundido com faturamento exclusivo da perfumaria. Ainda assim, ele ajuda a explicar por que o universo da beleza continua tentando capturar essa mesma associação emocional.

Por que pumpkin spice volta todos os anos?

Grande parte das tendências depende de novidade. Um ingrediente viral, um novo acorde ou uma estética de TikTok pode explodir rapidamente e desaparecer alguns meses depois. Pumpkin spice funciona de maneira diferente porque sua força comercial está justamente na repetição.

Ele possui um calendário. Some durante parte do ano e retorna quando o consumidor já espera encontrá-lo. Essa ausência temporária evita a saturação completa e transforma o reencontro em ritual. Na prática, a sazonalidade cria uma espécie de “relançamento automático” todos os anos.

A lógica é especialmente poderosa porque combina cheiro, memória e clima. Canela, noz-moscada, cravo, baunilha, açúcar queimado, massa assada e madeiras quentes acionam um imaginário de conforto, cozinha, sobremesas e temperaturas mais baixas. Mesmo quem vive em regiões onde o outono não tem a mesma paisagem cultural reconhece esse repertório através de filmes, séries, redes sociais e campanhas globais.

A beleza aprendeu a usar o calendário da comida

O fenômeno nasceu muito além da perfumaria, mas a indústria de beleza aprendeu rapidamente que um cheiro reconhecível pode migrar de categoria. Segundo os dados citados pela BeautyMatter, buscas por produtos ligados a pumpkin spice cresceram em segmentos inesperados, incluindo desodorantes, body washes, lenços corporais e até coloração capilar.

No TikTok, o interesse por perfume associado ao termo registrou uma expansão expressiva no período analisado. Isso não significa que “perfume de abóbora” esteja prestes a dominar o mercado, mas revela algo mais importante: o consumidor já entende pumpkin spice como uma atmosfera olfativa, e não apenas como um ingrediente culinário.

É exatamente aí que a perfumaria encontra espaço para trabalhar.

O gourmand amadureceu

Durante muitos anos, chamar uma fragrância de gourmand quase sempre remetia a baunilha, chocolate, caramelo e açúcar. O território hoje é muito mais amplo. Pistache, café, leite, arroz, chá, mel, panificação, cereais, frutas cristalizadas, manteiga, sal e especiarias aparecem em composições que tentam reproduzir sensações gustativas sem necessariamente cheirar como uma sobremesa literal.

Pumpkin spice se beneficia dessa evolução. Em vez de simplesmente reproduzir a combinação mais previsível de abóbora e canela, marcas podem explorar o conceito através de madeiras tostadas, resinas, âmbar, baunilha seca, especiarias frias, acordes cremosos ou nuances de café.

Isso permite que uma referência popular ganhe diferentes níveis de sofisticação. Uma fragrância corporal de grande varejo pode trabalhar um efeito direto de bolo recém-assado, enquanto uma casa de nicho pode interpretar o mesmo universo de maneira abstrata, aproximando especiarias de madeiras, incenso, lactônicos ou couro.

O dado de US$ 66,5 milhões precisa ser lido corretamente

Há um detalhe importante para não transformar um dado interessante em manchete enganosa. Os US$ 66,5 milhões citados na pesquisa correspondem a todos os produtos com “pumpkin spice” no nome vendidos na Amazon durante o período estudado. O recorte específico de beleza e cuidados pessoais foi menor.

A própria BeautyMatter informa que produtos de beauty e personal care contendo o termo em seus títulos movimentaram cerca de US$ 2,1 milhões nos 12 meses até agosto de 2026, com retração anual. Entretanto, as primeiras semanas da temporada seguinte começaram mais fortes: entre 30 de agosto e 19 de setembro, as vendas estimadas chegaram a US$ 435 mil, avanço de 17% sobre o mesmo intervalo do ano anterior.

Essa diferença é importante porque mostra duas coisas simultaneamente. Primeiro: não existe uma explosão linear de pumpkin spice em toda a beleza. Segundo: o tema mantém capacidade de provocar ciclos de demanda e novos lançamentos, especialmente quando chega o período sazonal.

Da viralização ao ritual de consumo

O mais interessante em pumpkin spice é justamente o fato de já ter sobrevivido ao estágio de “trend”. Tendências costumam depender de surpresa. Rituais dependem de reconhecimento.

Quando o consumidor espera que determinada sensação retorne em uma época do ano, a marca deixa de competir apenas por novidade e passa a disputar participação em um comportamento já estabelecido. É a mesma lógica de perfumes mais densos no inverno, cítricos no verão ou edições natalinas — mas com uma assinatura olfativa que ganhou identidade cultural própria.

Para a perfumaria, a lição vai além da abóbora. O mercado está aprendendo que acordes gourmand podem ser organizados por memória, ocasião, estação e estilo de vida. Isso cria possibilidades editoriais e comerciais muito mais amplas do que simplesmente lançar “mais um perfume doce”.

O que isso sinaliza para os próximos lançamentos

O crescimento do gourmand nos últimos anos não parece apontar para uma única nota dominante. O movimento mais consistente é a fragmentação do gênero em microterritórios. Alguns consumidores procuram sobremesas densas; outros querem cremosidade limpa; há quem prefira café, lactônicos, frutas açucaradas ou especiarias secas.

Pumpkin spice ocupa apenas um desses territórios, mas é um excelente estudo de caso porque demonstra como cultura popular, sazonalidade e memória sensorial podem transformar um acorde em plataforma comercial recorrente.

Para o Atlas Parfum, esse tipo de dado importa porque ajuda a separar hype de comportamento consolidado. Pumpkin spice pode mudar de formato e intensidade, mas a lógica que o sustenta — cheiros comestíveis ligados à memória e ao conforto — continua influenciando a perfumaria contemporânea.

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